Caminho pelas Estrelas Follow by Email

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Fw: PREVIEW . ART BASEL MIAMI BEACH OVR



----- Mensagem encaminhada -----
De: Casa Triângulo
Para: "odenir.ferro@yahoo.com.br" <odenir.ferro@yahoo.com.br>
Enviado: quinta-feira, 26 de novembro de 2020 09:00:39 BRT
Assunto: PREVIEW . ART BASEL MIAMI BEACH OVR



PREVIEW . ART BASEL MIAMI BEACH OVR

ONDE AS ESTRELAS ERAM TERRENAS . CURADORIA DE PRISCYLA GOMES
02.12.2020 - 06.12.2020



detalhe Sandra Cinto . Sem Título, da série Mar Aberto, 2020 . acrílica e caneta permanente sobre tela . 160 x 250 cm








Onde as Estrelas Eram Terrenas

Em um momento de intensa instabilidade e incerteza, a produção artística, tal qual nossas mais diversas formas de expressão no mundo, é colocada em perspectiva. O ano que passamos desenrola, junto às profundas transformações e adaptações pelas quais a humanidade se deflagrou, uma série de questionamentos sobre o lugar da arte, mais precisamente, sobre como será possível (re)construir caminhos fecundos frente a tamanhas ressignificações.

O antropólogo e filósofo francês Bruno Latour, em entrevista recente [1], afirmou que o sentimento de perder o mundo havia, agora, tornado-se coletivo. Essa perda, segundo o autor, teria implicações determinantes em diferentes esferas: as reações diante da crise político-climática e as implicações sociais e subjetivas dessa crise.

As perguntas que norteiam essa sensação de perda do mundo passam, irremediavelmente, pela avaliação do processo de globalização desencadeado nas últimas décadas. A facilidade de trânsito entre as mais diferentes regiões, o livre comércio, a ampliação dos fluxos e, consequentemente, a crise migratória internacional levantaram questionamentos sobre as reais potencialidades desse fenômeno. Como aponta Latour, antes mesmo do que esperávamos, nos deparamos com a pergunta: "Devemos continuar alimentando grandes sonhos de evasão ou começamos a buscar um território que seja habitável para nós e nossos filhos?". Enfim, diante desse novo contexto, onde deveríamos aterrar? [2]

A impressão de vertigem, quase de pânico, que atravessa a contemporaneidade deve-se, segundo o autor, ao fato de que o solo desaba sob os pés de todos ao mesmo tempo, como se nos sentíssemos atacados em nossos hábitos, crenças e anseios. Nesse processo, é natural que a arte e a cultura voltem-se a si mesmas, refletindo sobre suas especificidades, que a produção artística passe por um processo de reafirmação como forma essencial de expressão e que nossas subjetividades dirijam-se à compreensão do que nos é inerente e, principalmente, primordial.

A seleção de trabalhos aqui reunidos, sob diferentes vieses, toca em problemas decorrentes desse momento de impasse provocado pelas mudanças recentes no âmbito político, social, climático e também pela atual crise pandêmica. São trabalhos que lidam com a suspensão temporal, com a contemplação das mudanças e com o próprio exercício de nossas subjetividades, a fim de investigar onde a arte encontra hoje possibilidades de aterrar.

Thiago Rocha Pitta apresenta uma série de afrescos e aquarelas em que a paisagem é construída pelo registro de mudanças físicas e de fenômenos naturais. A suspensão de determinados instantes é materializada por intermédio de eclipses, neblinas e incêndios. À sua série, somam-se as paisagens silenciosas e naturezas-mortas de Albano Afonso, provenientes do acúmulo de registros fotográficos que condensam espaços e tempos dos mais distintos. A sobreposição de camadas e a multiplicidade de focos e luzes nos remetem a uma indiscernibilidade do instante fotográfico como forma de fusão de elementos e embaralhamento de nossas apreensões.

A suspensão temporal também encontra desdobramentos nas proposições de Juliana Cerqueira Leite, frutos de sua busca por aliar uma investigação entre o corpo humano e a história de sua representação. Corpos Moles (2020), esculturas recentes produzidas para a individual Hotel Marajoara [3], aliam referências estéticas da produção artística de povos ameríndios originários do Pará ao processo de fatura investigado recorrentemente pela artista. Composta de gesso e papel, a escultura adequa-se a uma configuração que perdura frente ao tempo e à gravidade, sendo uma forte simbologia da resistência da forma.

Em outro âmbito, Alex Cerveny explora a riqueza imaginativa de suas pinturas para criar um universo que lhe é próprio e peculiar. Por meio da fusão de referências imagéticas e representacionais das mais distintas proveniências e temporalidades, Cerveny revisita a história da arte voltando-se à indiscernibilidade entre real e imaginário. Ivan Grilo toma partido também da narrativa para conferir à palavra, em seu significado e materialidade, a possibilidade de nos aproximar de histórias reais e ficcionais. A precisão de suas escolhas nos coloca diante da agudeza dos fatos, muitas vezes oriundos de inúmeras camadas temporais só resistentes ao esquecimento pela força da somatória de memórias.

Além dos nomes citados, obras de Eduardo Berliner, Mariana Palma e Sandra Cinto apontam, por caminhos distintos, as possibilidades de aterramento que o próprio processo pictórico é capaz de revelar. São trabalhos em que o exercício e a dedicação incessante ao seu processo de elaboração realizam no fazer pictórico sua síntese primordial. O processo diligente de seus trabalhos parece encontrar na pintura e no desenho o alento aos caminhos tortuosos que se apresentam. Berliner explicita esse processo nas hibridizações entre o humano e o animalesco oriundos da convivência entre elementos do cotidiano e figuras oníricas. É na materialidade da sua pintura que essa fusão se expressa de maneira contundente. Por outro lado, a força assombrosa das paisagens de Palma e Cinto convive com a delicadeza dos gestos, tornando-as um convite inconcusso a uma profunda imersão. Nos céus noturnos e mares revoltosos de Cinto revela-se ainda uma alusão à importância do papel do(a) artista de conduzir o espectador para caminhos outros à obscuridade que, muitas vezes, assola a interioridade dos sujeitos.

Retornando às explanações de Latour, agora à luz dos trabalhos mencionados, podemos pensar como a arte ainda é capaz de apontar, por intermédio do sensível e do subjetivo, territórios, crenças e ações onde seja possível aterrarmos. Mais precisamente, apontar caminhos que possibilitem a construção de novas raízes.

Entre o místico e o científico, o sensível e o objetivo, esse novo entendimento do mundo e de seus fenômenos carece de abdicarmos da sensação constante de estarmos em movimento para passar por um processo de lenta observação. A contemplação e a desaceleração tratam-se de conhecimentos ancestrais que permitiam que as comunidades indígenas pudessem antecipar mudanças climáticas, conectar-se com o ambiente, deparar-se e dissociar-se do nocivo. Como aponta o ambientalista e escritor Ailton Krenak, "suspender o céu é ampliar o nosso horizonte. É enriquecer as nossas subjetividades, (esta) matéria que o tempo que nós vivemos quer consumir. [...] Já que a natureza está sendo assaltada de uma maneira tão indefensável, vamos, pelos menos, ser capazes de manter nossas subjetividades, nossas visões, nossas poéticas. Definitivamente, é maravilhoso saber que a diferença entre cada um de nós faz com que nos tornemos como constelações. [...] O fato de podermos compartilhar esse espaço significa que somos capazes de atrair uns aos outros pelas diferenças." [4]

Por intermédio dos trabalhos dos artistas aqui selecionados, "Onde as estrelas eram terrenas" se faz de uma aposta. Frente ao cenário cada vez mais desolador, é preciso encontrar na arte um caminho possível à contemplação e à transformação. Somente com a percepção mais clara dos motivos que nos aterram, somos capazes de vislumbrar os devires das constelações.

Priscyla Gomes
novembro de 2020



[1] concedida ao Jornal El Pais e publicada em março de 2019: brasil.elpais. com /brasil/2019/03/29/internacional/1553888812_652680.html
[2] o termo aterrar é empregado por Bruno Latour em sua obra recente "Onde aterrar? Como se orientar politicamente no antropoceno", publicada em 2020.
[3] realizada na Casa Triângulo, em 2020.
[4] Ailton Krenak. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo, 2019 (p. 32 e 33)

    

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