Caminho pelas Estrelas Follow by Email

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Enc: Coletânea de "Contos de Natal" (1º Bloco) - de Carlos Leite Ribeiro. Formatação de Iara Melo. Divulgação internacional e direta "Cá Estamos Nós" carlos leite ribeiro


----- Mensagem encaminhada -----
De: Carlos Leite Ribeiro 
Para: 
Enviadas: Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012 15:33
Assunto: Coletânea de "Contos de Natal" (1º Bloco) - de Carlos Leite Ribeiro. Formatação de Iara Melo. Divulgação internacional e direta "Cá Estamos Nós" carlos leite ribeiro
*** AS HORAS DO DESTINO ***
 
 

Portal CEN - "Cá Estamos Nós"
 
 
Coletânea de "Contos de Natal" - de Carlos Leite Ribeiro
 
 
 
COLETÂNIA de "Contos de NATAL" – de Carlos Leite Ribeiro
 
Formatação de Iara Melo
Primeiro BLOCO
 O BONECO DE TRAPOS
Este texto passou na Radiodifusão pela voz/ interpretação da locutora/ atriz, Sandra Ferreira. Quando terminou o texto, estava com os olhos marejados de lágrimas…
O BONECO DE TRAPOS – de Carlos Leite Ribeiro
Era uma vez um boneco de trapos...
O Natal estava à porta e, numa casa modesta, a mãe viúva e as suas duas filhas, trabalhavam afincadamente na confeção de bonecos de trapos.
O último boneco da última série saiu defeituoso: uma perna mais curta, um braço mais comprido e até o olhar era vesgo.

- Não vamos mandar este boneco para a loja, pois, está muito defeituoso - disse-lhe uma das filhas.
- É um facto, este boneco ficou com muitos defeitos - concordou a mãe, que continuou - mas talvez passe e não seja devolvido. Nós precisamos tanto de dinheiro...
- Sendo assim, minha mãe, vamos então mandar também o "aleijadinho.

E o Boneco de Trapos, com uma perna mais curta, um braço mais comprido e com o olhar vesgo, lá foi para a loja...
 
Em outra casa modesta, outra mãe falava a sua filha mais nova:
- Tu minha filha, queres oferecer uma prenda de Natal àquela menina que mora além, naqueles prédios novos, mas nós somos pobres e não podemos oferecer nenhum brinquedo caro.
- Podemos comprar qualquer coisa barata, uma simples lembrança - disse-lhe a criança - para mais, ela deu-nos umas roupitas que nos fizeram muito arranjo.
- Pronto, não insistas mais. Vai à loja e compra um brinquedo que seja barato.
 
E foi assim que, o Boneco de Trapos, defeituoso, com uma perna mais curta, um braço mais comprido e o olhar vesgo, bem embrulhado e com um laço colorido, foi parar a uma casa menos modesta, onde habitava uma menina, que tinha muitos brinquedos caros e bonitos...

- A tua amiguinha ali de baixo, a que no outro dia deste aquelas roupas, trouxe-te esta prenda.
- Ah, mas que boneco tão imperfeito, mamã! que hei-de de fazer com ele? É tão feio?!
- Brinca com ele - retorqui-lhe a mãe - Talvez depois o consideres bonito.

Pouco convencida, a menina não arranjou outra brincadeira que não fosse colocar o Boneco de Trapos, no centro do alvo dos dardos, e, com uma precisão quase matemática, começou a espetá-lo. Pouco a pouco o boneco foi-se desfazendo, e, assim, quase desfeito, foi parar na manhã da véspera de Natal, a um contentor de lixo...

Nessa manhã, uma mãe levava sua filha pela mão e, ao passar por um contentor de lixo, a criança exclamou:
- Mãe, olha aquele boneco de trapos. É tão bonito, deixa-me levá-lo?
- É um boneco tão imperfeito, já desventrado, para que tu o queres? Só servia para sujar a casa.
- Mãe, eu nunca tive um boneco, e este, até é coxinho como eu. Tu, minha mãe, até podias arranjá-lo, para mais, o Pai Natal nunca se lembrou de mim!

E a criança lá levou o boneco para casa, que à noite já estava consertado e com os defeitos corrigidos. Até parecia outro...
Quando nessa noite, foi para a cama, a menina aleijadinha, orgulhosamente, deitou o Boneco de Trapos a seu lado, e disse à mãe:
- Mãe, tu que és tão habilidosa, que concertaste tão bem este boneco, não podias concertar também e minha perninha, para eu ficar tão bonita como ele?
Comovida, a mãe limpou uma lágrima que, teimosamente lhe caia pela face abaixo, e, tristemente, respondeu-lhe:
- Infelizmente não posso, minha filha. Mas confiemos em Deus e na boa vontade dos Homens. Talvez para o ano que vem, possas ser curada...

E um ano passou...
A menina aleijadinha, depois de fazer algumas operações e de ser bem tratada, recuperou do seu defeito físico.
- Mais um ano em que não podemos fazer uma festinha nesta noite. Nem sequer um brinquedo te posso dar, minha filha - lamentava-se a mãe.
- Não te preocupes, mãe, eu já recebi uma grande prenda, pois, estou completamente curada e, para mais, tenho o Boneco de Trapos, que sempre me acompanhou. Ele é tão bonito, não é, mamã?! 
O frio lá fora era intenso e talvez nevasse...
Aquela mãe, depois de aconchegar os cobertores a sua filha e ao seu Boneco de Trapos, olhou-o com mais atenção, e, teve a sensação que este lhe sorria e lhe dizia:
- Obrigado, mãe, vai descansar, pois eu velarei pela nossa menina...

E será mesmo que... Nessa Noite em que dizem que os animais falam, os Bonecos de Trapos, também falam?
 
"Nunca digas NUNCA..." - de Carlos Leite Ribeiro
Foi há muito tempo. Naquele dia...
Último encontro de dois seres que se amavam, mas como eram muito teimosos e muito orgulhosos, nunca conseguiram encontrar a fórmula que harmonizasse as suas naturais divergências.
Tal teimosia deu origem a um afastamento que tudo indicava ser definitivo.

Ela - "...tu não me apareças mais à minha frente, nem procures veres-me mais, porque eu para ti morri - entendeste? Morri!... Se por acaso, alguma vez, me encontrares na rua, por favor, muda logo de passeio e nem de soslaio olhes para mim! Nunca te esqueças, disto que te digo!"
Ele - "O que disseste também se aplica a ti, e mais, nem pensamentos em mim te autorizo a teres, porque eu não preciso, nem precisarei de ti para nada. Nada - entendeste?!... Nada! Agora, desaparece da minha vista para sempre - mulher malvada! Para sempre!

Passados alguns meses ambos casaram com namoros que entretanto tinham arranjado.
Foram viver para terras diferentes e nunca mais se encontraram.
O ódio que votaram um ao outro, tinha surgido efeito. Mas... Há sempre um mas...

Estávamos na véspera do Natal.
À porta de um supermercado, Ele, hesitou mas por fim resolveu entrar para fazer as compras que ainda lhe faltavam. Já estava quase aviado, quando ao passar por um corredor, avistou uma prateleira com bolos de rei. Ergueu o braço para ir buscar um, ao mesmo tempo que uma senhora teve a mesma ideia e fez o mesmo gesto. Resultado: o mesmo bolo que ambos agarraram caiu-lhes a seus pés, e ambos, ao tentar apanhá-lo, com a precipitação, chocaram com as cabeças um do outro...
Ainda massajando as cabeças, ambos olharam um para o outro.

Ela - Olha!... Que fazes tu aqui? - Perguntou-lhe muito admirada.
Ele – Faço o mesmo que tu. Mas noto que continuas a teres a cabeça muito rija!
Ela – Oh menino, isso pode eu dizer de ti; olha o "galo" que me fizeste na cabeça... – Disse-lhe Ela enquanto afastava o cabelo para lhe mostrar um inchaço que já começava a notar-se - e continuou:
Tu - Com tantos estabelecimentos que para aí existem, tinhas que vir hoje e à mesma hora que eu também vinha, a este... É preciso ter azar!
Engrossando um pouco a voz, respondeu-lhe:
Ele: - Se eu soubesse que estavas aqui, nem nesta rua teria passado. Nem nesta terra! Que pouca sorte a minha! Bem, em que ficamos: levas o bolo ou levo eu?
 
Olhando-o de soslaio, disse-lhe:
- Sim, eu vou tirar o meu bolo. Quero lá saber se tu também tiras ou não o teu! E para já, a conversa acabou. Feliz Natal, passa muito bem, que não foi prazer nenhum ter-te encontrado!

Ele sorriu. Apesar dos anos, Ela, continuava "espevitada" como era dantes. E também continuava muito bonita... Por casualidade, tinha sabido há pouco tempo que ela também tinha enviuvado. Marotamente procurou a "chateá-la" um pouco mais:
- Como esse carrito das tuas compras, está muito pesado e a rolar mal, eu tenho muito prazer de o te levar até lá fora...

Ela mostrou logo o seu desacordo com tal oferta. Mas o carrito estava de facto muito pesado e rolava muito mal. Fingindo-se mais zangada do que de facto estava, lá acedeu:
- Olha que é só até à porta, pois o meu carro está ali perto.

Tentando ser mais "gozão", do que de facto era, Ele lá lhe foi dizendo:
- Não te preocupes. Eu só faço esta "gentileza" para te ver o mais longe possível; imagina, o mais rapidamente possível, de mim!"
 
Depois de passarem pela "caixa", Ele levou-lhe o carro cheio de compras e a rolar mal, até junto do automóvel dela, como era o seu desejo. Ela quase que lhe agradeceu:
- E pronto, acaba aqui o nosso encontro - o nosso inesperado encontro. Confesso que não tive o menor prazer em tornar-te a ver!
Não querendo ficar por baixo das palavras dela, logo lhe respondeu:
- Olha que estou plenamente de acordo contigo! Mas que lá foi um enorme prazer ter-te ajudado, isso foi. Ah antes que me esqueça, quero pedir-te desculpa de te ter feito, involuntariamente, esse "galo" na tua cabeça. Assim, talvez logo à noite, penses em mim!

Ela ao ouvir isto, quase que o "fuzilou" com os olhos, e disparou-lhe em seguida:
- Não sejas convencido, porque eu sou (e sempre serei) incapaz de pensar em ti. Pronto, pronto, a conversa já vai longa! Muito obrigado pela tua (inesperada) "gentileza" e mais uma vez um Feliz Natal para ti. Oxalá que nunca mais nos encontraremos. Vá lá, agora, sai da minha frente.

Dizendo-lhe isto, Ela entrou para dentro do carro, pô-lo a trabalhar, e, quando estava quase a arrancar, debruçou-se para o seu lado direito, e abrindo o vidro, perguntou-lhe:
- Olha lá, "menino", com quem vais tu passar a noite da Consoada? E logo rematou: Não é que me interesse, melhor, não tenho o mínimo interesse em ti nem da tua vida.
Ele parou, olhou-a nos olhos e, com um sorriso algo triste, respondeu-lhe:
- Como é já habitual há alguns anos, vou passar esta noite sozinho.

Ao sentir a tristeza dele, Ela, quebrou um pouco o seu ar que pretendia ser altivo. Mas "reguila" como era, não se conteve e disse-lhe em tom de despedida: - Isso acontece muitas vezes às pessoas más, de feitio irascível.
E lá seguiram o seu caminho, cada um para seu lado...

Ele voltou a entrar novamente no estabelecimento. Abeirou-se do carrito que lá deixara com as suas compras. Pensava nela:
- Porque a tinha encontrado? Porque lhe tinha falado?
Agora seria pior, pois não parava de pensar nela. A sua cabeça estava feita num verdadeiro caos. Sentiu-se revoltado. Já não lhe apetecia comprar mais nada. Não queria estar mais naquele ambiente do supermercado. Deu meia-volta ao carrito para se vir embora. Espanto seu, Ela estava novamente na sua frente. Mal pode balbuciar:
- Tu, novamente aqui...?!
Calmamente, Ela, altivamente, respondeu-lhe:
- Não penses que voltei por tua causa! Voltei, sim, porque esqueci-me de comprar umas coisas, nada mais... Ou já pensavas que?...
Ao encará-lo novamente, notou que Ele tinha os olhos de quem queria chorar. E até a sua voz era mais suave. Sentiu um grande arrepio. Nesse momento, por qualquer motivo ou avaria, as luzes do estabelecimento apagaram-se. Ela sobressaltou-se e nervosa como estava, quase lhe suplicou:
- Com esta escuridão, é melhor irmos embora.
Ele logo concordou:
- Talvez pela primeira vez na vida, estou plenamente de acordo contigo.

Dirigiram-se então para a saída. E, Ela estava ali a seu lado. Tinha a sensação de ouvir a sua respiração e sentia o calor da sua mão, que estava junto da sua. Parecia sonhar um sonho lindo, e a meia voz, balbuciou: -
- Já vejo a luz da rua. Não será bem uma luzinha "ao fundo de um túnel", mas quase...
Admirada (ou talvez não) Ela logo retorquiu-lhe:
- O que é que estás para aí a dizer?
Embora hesitante, Ele respondeu-lhe timidamente:
- Bem, é que... é que... como hei-de dizer… É que gostava imenso de cear contigo esta noite...
Ela fingiu-se muito admirada com o que ouvira momentos antes, passando a mão pelos ainda belos cabelos, embora já algo grisalhos, disse-lhe:
- Ho "menino", controla-te...pois deves de estar a delirar! Que surpresas me guardou o destino para hoje! Olha cá para mim...Não, não, não ... Repara, eu já tenho o meu programa para esta noite: o meu filho vai a minha casa com a mulher e o meu netinho; talvez também uns primos, além de umas vizinhas...
Ele interrompeu-a ao retorquir-lhe tristemente:
- Só eu é que não posso ir, não é assim?
Ela encarou-o novamente. Sorriu (talvez com malícia) mas notava-se algum nervosismo: 
- Ai, tu só me trazes problemas. Como é que eu posso agora anular os convites, não me dizes? Mas porque é que eu te tinha que te encontrar novamente, e logo neste dia? Tu, como sempre, só me trazes trabalhos e problemas.

Ele até parecia que estava no meio de um sonho. Um sonho lindo. Não, não queria acordar. Mas desta vez, Ela, estava ali a seu lado, compreensiva e com uma certa doçura no olhar e na voz, que nunca tinha imaginado que Ela seria capaz...Ainda que timidamente, atreveu-se a balbuciar:  - Então, "menina...Às oito horas, está bem?... 
Ela ainda hesitou. Escondeu a cara entre as suas mãos. Depois fez-lhe uma festinha no rosto dele, dizendo por fim:
- Mas olha que eu não vou a tua casa!
Visivelmente satisfeito, e porque não dize-lo, muito admirado com Ela, também aprovou.
- Linda, não tem importância nenhuma, posso eu ir a tua casa!
Ela, começou logo a fazer contas à vida:
- Oito horas?... Olha menino, vai um pouco mais cedo, pois o programa da Televisão começa às sete, e assim poderíamos o ver desde o princípio...
 
Ele, sorriu e pensou:
- Ou muito me engano, ou nunca mais passarei outro Natal sozinho!"
Ti- Manel – de Carlos Leite Ribeiro
 
A minha vida nunca foi fácil : aos dez anos já era órfão de pai e de mãe.
Como não tinha família, fui criado, como soe dizer "ao Deus dará", por um pobre velhote, que na véspera de um Natal me levou para a sua barraca de madeira e, que tudo fez para me alimentar e ensinar as primeiras letras. Tudo fez para que eu pudesse ser um homem honesto e digno.
O ambiente onde vivíamos não era nada agradável, pois a barraca de madeira ficava no meio de outras barracas (favela). Mas, pior que isso, algumas pessoas que lá viviam eram pouco recomendáveis: ladrões, prostitutas, drogados, etc.
Era um lugar, por assim dizer, muito degradado.
Os anos foram passando e eu fui crescendo e adaptando-me aquele ambiente. Comecei então a roubar e a drogar-me, com grande desespero do Ti Manel, o bom velhote que, anos antes tinha tomado conta de mim.
Um belo dia, revoltado com os conselhos que me dava o bom velhote, resolvi fugir de casa e tornar-me um "profissional" do roubo.
Lembrava-me muitas vezes do bom velhote e daquilo que ele me dizia:
- Menino, para seres um homem, tens de aprender a ler e a fazer frases completas…
Frases completas...
Tinha-me esquecido completamente delas, tão excitado andava com o roubo, a prostituição e a droga.
Frases completas...
Eu, sabia que um dia podiam proporcionar-me uma vida honesta, e ser realmente um grande homem, culto e respeitado.
O Natal aproximava-se a passos largos, e eu comecei a ficar farto daquela vida. 
Naquele dia senti-me muito nervoso e, para com os meus botões, comentei:
- Devia de voltar novamente para junto do Ti Manel, nem que fosse só para aprender a ler e a escrever...
Assim, enchi-me de coragem e fui ter com ele.
Ao abrir a porta da barraca, o bom velhote encarou-me, perguntando:
- Vens para ficar?.
– Sim, Ti Manel, e desta vez será para sempre – respondi-lhe.
Mandou-me entrar e logo foi dizendo:
- Hoje mesmo começaremos a escrever frases .
Ele sabia tudo o que eu tinha feito, as companhias com quem andava, mas nem seus lábios, nem seus olhos revelaram a menor censura. Sorri para o Ti Manel, como quem pede perdão, e o sorriso apareceu por si mesmo, sem qualquer esforço.
A partir daquele dia meti-me em brios. Comecei a trabalhar e a frequentar a escola.

Está a fazer um ano...
No Natal como já era habitual, o Ti Manel foi passar a noite da Consoada em minha casa, com minha mulher e minha filha, a que ele chamava carinhosamente de neta.
Depois da ceia, o Ti Manel sentou-se num sofá em frente do televisor. Pediu um cobertor e embrulhou-se nele. Minutos depois morreu, quase sem nós darmos por tal.

Parecia que sorria, e quem sabe se sorria mesmo, contente por ter feito de mim, um homem  honesto e trabalhador.

"Glória a Deus nas alturas e Paz na Terra ao Homens de boa vontade".
 
 
"Mensagem Natalícia" - de Carlos Leite Ribeiro 
Naquela véspera de Natal, o senhor Freitas regressava a casa, sozinho como sempre, pois, já há muito tempo que não convivia com ninguém, pois tinha um feitio muito especial que afastava os amigos.
Um saco de plástico na mão esquerda, chapéu-de-chuva no braço direito, uma gabardina muito comprida e muito usada; botas gastas e a "comerem" a bainha das calças já muito coçadas; óculos encarrapitados no seu grosso nariz, e uma boina muito velha na cabeça. Corpo vergado pelo peso de muitos anos - era assim o senhor Freitas!
 
O dia estava a findar e, o movimento nas ruas era enorme, pois, toda a gente queria chegar a casa o mais cedo possível, com os presentes para os seus familiares e amigos. Chuviscava.
Ninguém parecia reparar naquela personagem, nem este, parecia notar a presença de outros.
Uma criança se abeirou dele:
- Senhor, uma esmolinha por favor... Senhor, uma esmolinha por favor...
- Eu não dou nada a ninguém - vai-te embora daqui!" - Respondeu-lhe com mau modo o velhote.
Mas a pequena insistia
- Hoje é Natal - dê-me uma esmolinha por favor...
- O Natal é só para os outros, garota! O Natal para mim é um dia igual aos outros... ... Ai, ai que eu caio, ai...aiii… 
E o senhor Freitas escorregou numa casca de banana e caiu mesmo. Logo a criança, muito aflita, gritou-lhe:
- Cuidado, senhor...
- Ai...ai, meu braço. Maldita casca de banana!...
- O senhor magoou-se? Terá algum osso partido? coitadinho... - Não se cansava de perguntar, muito aflita, a garotinha. O velhote parecia que nem a ouvia:
- Ai, o meu braço que me dói tanto... Ó garota, apanha-me essas maçãs e também o pão. Ajuda-me a levantar. Mas cuidado, cuidado... Ai, ai o meu braço...
- Tenha calma, eu ajudo o senhor a levantar-se... Vá lá, com muito cuidadinho; vá, vá, pronto. Agora, vou levá-lo ao hospital.         
O senhor Freitas, teimosamente, tentava prescindir dos seus préstimos:
- Não preciso de nada, garota! Eu vou sozinho... Mas, ai, ai... O meu braço...
Carinhosamente, a garota tentava convencê-lo a ir tratar-se:
- Está a ver?... O senhor precisa da minha ajuda. Não seja teimoso, nem mauzinho. O senhor até tem cara de homem bom!
-  Eu cara de homem bom? Eu bom? Tu estás enganada - ou pretendes enganar-me... Ai…
- Olhe que é preciso ter uma grande paciência para lidar consigo! Você tem cara de homem bom e pronto - é a minha opinião!
Como sempre, o senhor Freitas estava desconfiado:
- Deixa-te disso garoto, que a mim não me consegues convencer com essa cara de anjo. Tu queres é o meu dinheiro, nada mais. Ai, o meu rico braço que cada vez me dói mais!
Já revoltada, a garota respondeu-lhe: - 
- Sou muito pobrezinha e não tenho ninguém que me dê de comer, mas juro que não quero o seu dinheiro, como diz...
- Tretas! É só lérias, pois todos que de mim se abeiram, só querem o meu dinheiro! E vens tu agora, com falinhas mansas, a dizeres que não o queres! E isto só por eu ter cara de homem bom!... Ai... O meu braço que me dói tanto...
A garota revoltada e já com lágrimas nos olhos, retorquiu-lhe: -
- O senhor está a ser injusto para comigo!... Por acaso nunca ouviu falar em solidariedade humana?
Embora com muitas dores, o senhor Freitas não desarmava:
- Puuff, sei lá o que é que isso! A única coisa que conheço é o valor do dinheiro!
Mas não ficou sem resposta: -
- Então, meu senhor, enrole todo o seu dinheiro em volta do seu braço que deve estar partido, e, talvez assim fique sem dores e com o braço curado! Por acaso o senhor não compreende o significado do Natal?!
- Lá jeito para discursos, tens tu, garota! - Comentou o velho "resmungão".
- Vou-me embora. Como vê, eu não quero o seu dinheiro. Simplesmente, estava a tentar ajudá-lo.
Dando meia-volta, ia-se a afastar, deixando o senhor Freitas muito estupefacto.
- Como assim?! Vais-te embora? Tens coragem de me deixares aqui sozinho? Finalmente tu és como os outros que por aqui passam, sem repararem neste pobre velho  - que até tem um braço partido...
Ao ouvir isto, a garota parou e respondeu-lhe:
- Mas o senhor é que não quer a minha ajuda!
O velhote ouviu e "engoliu em seco". Mas, logo continuou: -
- Aonde está a tal tua solidariedade que ainda há pouco apregoavas? Sim, aonde é que ela está? Ao deixares aqui sozinho um pobre velho, doente e com um braço partido? Ai, ai que me dói tanto!
A garota sorriu e já mais confiante, retorqui-lhe: -
- Meu senhor, enrole todo o seu dinheiro em volta do seu braço. Talvez assim se cure...
Já em tom quase suplicante, o velhote pediu-lhe: - 
- Mas o dinheiro não me vai curar! Preciso da tua ajuda! Eu pago-te o que tu quiseres, mas, por favor, ajuda-me a ir ao hospital! Pois preciso de me curar. Ajuda-me, garota!... Por favor!
- Dê cá o saco e o guarda-chuva: Agora, encoste-se ao meu ombro e vamos ao hospital...

E era bonito de ver.
Um velho sovina, curvado pelo peso de muitos anos, encostado ao corpo frágil de uma criança, a caminho do hospital onde ia ser tratado.

Naquela noite de Natal, o senhor Freitas, finalmente, devia de ter compreendido a mensagem de Deus:

"GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE"
 
X
 
 
Formatação de Iara Melo
Fundo Musical: Fado Tropical
Chico Buarque; Ruy Guerra
Visite e Registre sua opinião no Livro de Visitas
Muito OBRIGADO
 
 
 
........
.........
.........
...... ...
Divulgação directa para o mundo Lusófono e Núcleos espalhados pelo Mundo
Presidentes, Ministros, Senadores, Deputados de vários países; Universidades, Institutos,
Liceus; Professores de vários níveis de ensino; entidades oficiais e particulares; etc.
51.172 e.mails autorizados.