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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Enc: [PoetasdelMundo_Brasil] GRUPO DE POESIA LUNA&AMIGOS - HOMENAGEIA OS 123 ANOS DE FERNANDO PESSOA



--- Em seg, 13/6/11, daspet
 escreveu:

De: daspet
Assunto: [PoetasdelMundo_Brasil] GRUPO DE POESIA LUNA&AMIGOS - HOMENAGEIA OS 123 ANOS DE FERNANDO PESSOA
Para: "GrupoLuna&Amigos"
 
 
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"PoetasdelMundoBrasil"
Data: Segunda-feira, 13 de Junho de 2011, 12:32

 
 
 

 

FERNANDO PESSOA

123 ANOS DE SEU NASCIMENTO

 Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador.
Tem que passar além da dor.
Fernando Pessoa

 

 

 

 

Fernando Pessoa


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.



Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.



Quer pouco, terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.



Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Niguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário
Cumpre alto. Sê teu filho.



Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.



Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.



Não tenho ambições nem desejos.
ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sózinho.
...

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
...
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar...
...

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
...

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.



Acordo de noite subitamente.
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora,
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...



E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.



Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?



Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
...

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!



Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.



Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.
...

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?



Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.



Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!... Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso... Falai, portanto, sem repardes que existis...
...

Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me gritar dentro de mim, mas já não sei o caminho da minha vontade para a minha garganta.



O mistério do mundo,
O íntimo, horroroso, desolado,
Verdadeiro mistério da existência,
Consiste em haver esse mistério.
...

Não é a dor de já não poder crer
Que m'oprime, nem a de não saber,
Mas apenas completamente o horror
De ter visto o mistério frente a frente,
De tê-lo visto e compreendido em toda
A sua infinidade de mistério.
...

Quanto mais fundamente penso, mais
Profundamente me descompreendo.
O saber é a inconsciência de ignorar...

Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem o saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.
...

Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo
Menos me sinto compreendido. Ó horror
paradoxal deste pensar...
...

Alegres camponesas, raparigas alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!



Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.



Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!



Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço.



Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.



Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?
...

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.



Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...



Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada
Entregai-vos ao travo doce das delicias
Que filhas são dos seus tormentos
Porém, não busqueis poder no amor
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre



Bendito seja eu por tudo o que não sei
gozo tudo isso como quem sabe que há o sol



Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é dele
e não se cura de fora.
Porque sofrer não é ter falta de tinta
ou o caixote não ter aros de ferro!



E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.


 

__._,_.___
.

Delasnieve Daspet
Embaixadora Universal da Paz
Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix
Genebra - Suiça
.

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Enc: [PoetasdelMundo_Brasil] Odenir Ferro



--- Em seg, 13/6/11, brppoetasdelmundobrasil
<brppoetasdelmundobrasil
escreveu:

De: brppoetasdelmundobrasil
<brppoetasdelmundobrasil
Assunto: [PoetasdelMundo_Brasil] Odenir Ferro
Para: "PoetasdelMundoBrasil"
Data: Segunda-feira, 13 de Junho de 2011, 11:26

 
 
----- Original Message -----
 

 

 

 

PROSA POÉTICA: O MEU POÉTICO CHÃO
Autor: Odenir Ferr
o

Um gosto de sal na boca e o aroma da terra lavada fluindo acima dos meus pés, enquanto piso descalço nas folhas ressequidas pela estação outono.
Um espelho em forma de muitos fiascos dos raios do sol refletindo nos meus olhos mirando tudo a minha volta. E em torno de mim, fica alumiando a minha emoção. Enquanto vou transmutando as minhas esperanças, quase subjetivas dentro das minhas sensações, no objetivo transparente do horizonte logo ali!
Na espreita, me mirando, entreolhando-me entre as plantas umedecidas pelas gotículas de chuva, que agora se ressecam na brisa amena do vento tépido pela tênue e tímida luz dos reflexos vindos dos raios solares; que pouco os deixam, a espessura das folhas plenas de texturas firmes e verdes, os adentrarem floresta dentro. Para virem refletirem-se no chão.
Enlameado chão repleto de folhas outonais caídas amarelecidas.
Onde eu as piso caminhando vagarosamente, pensando no meu chão.
O meu poético chão! O meu Universo construído pela minha imaginativa emoção em ação. E tracejado pelas linhas do meu coração!
Onde sempre vivo a rabiscar os esboços e faço uns planos e tracejo metas cheias de desenhos de letras. Sempre paginando e repaginando os percursos do meu viver. Ao ir desenhando-me em caricaturas coerentes com o meu profundo eu, através das linhas do meu sublime imaginário.
Pleno de força poética regida pela beleza eterna do Universo caminhando o planeta Terra entre as estrelas, rumo ao infinitivo incógnito da desconhecida imensidão.
Imensidão composta pela ígnea chama do Amor Eterno e Divinal da Sagrada Criação, que nós O denominamos reverentes e humildes, de Deus!

Enquanto piso folhas e flores ressequidas pelo tempo, espalhadas pelo chão feitas um gigantesco tapete. Penso e contemplo dentro e fora de mim a beleza do incógnito expansivo da plenitude amorosa que nos presenteia de pura e radiante clareza e carisma. Feito águas puras cristalinas jorrando até a fonte do nosso amor as nuances delineadas pelos contornos das composições que atuam entre o micro e o macro cosmos. Que ladeia-nos fora de nós, onde neles flutuamos, vivemos, vibramos, atuamos, enfim. Com a força da nossa vida motivando-nos a caminhar e criarmos ininterruptamente as texturas alquímicas do nosso próprio universo interior.
Rabisco uns desenhos de letras e deles extraio as palavras para compor as minhas mais complexas emoções. Por sentir a plenitude presente em todas as facetas que compõem o meu eu. Ao levar-me para fora de mim, ao irk projetando-me para fora de mim, com o meu senso criativo segurando a minha alma por um fio imaginário. Idealizado pelos sonhos das minhas memórias. Que fluem intempestivamente como se fossem uma grossa pancada de chuva inesperada, caindo pela floresta, agora!
Chuva que vem molhando meu rosto, misturando-se com as minhas grossas lágrimas e diluindo e misturando-se com o suor do meu rosto.
Fico eu, estagnado por uns momentos. Sempre atento a tudo, enquanto a chuva, do mesmo instante em que veio e caiu por não mais que uns poucos minutos, para de repente, estanca-se enquanto por dentro de mim, deixo fluir o fluxo do meu sangue que o sinto fazendo corar as faces do meu suado rosto.
Enquanto a chuva para de repente, percebo que muitos grilos começam a orquestração sonora em conjunto com as cigarras, formando uma bela, melancólica e singela sinfonia que flui por todos os poros da floresta cheia de mato verde e perfumado.
Num relance de olhos, posso notar que acetinadas brumas de névoa úmida, agora emergem do plácido lago situado à minha esquerda.
Nas suas margens pode-se ver muitas flores d'água e pequenas vitórias-régias. Cujas flores de um tom rosa claro ficam expostas imponentes refletidas, no espelhado do calmo e cristalino lago.
Os pés de coqueiros estão inertes como rochas. Contemplativos mirando o azul celúreo do céu!
E os bambuzais, mais distantes um pouco dali, também refletem suas copas verdes mescladas de tons olivas, verdes musgos, indo até os tons mais amarelados e verdes claros de galhos de bambus envelhecidos ou ainda em broto. Tudo isso é possível ver do outro lado. Na margem oposta onde estou agora. E que fica entre mim e o lago. Mas que também se projeta se alonga e se mostra de forma inversa e espelhada dentro dele. Compondo uma bela imagem numa paisagem perene, flexível e quase inerte dentro dele.
Apenas pequenos movimentos de ondas pouco difusas e minúsculas, fazem movimentos circulares que estão presentes na dinâmica dos acontecimentos, devido aos pequenos pingos e respingos de algumas gotículas de chuva que ainda caem. Fazendo assim, com que estas belas imagens cênicas refletidas dentro do plácido lago, se tremeluzem de quando em quando, embora sem perderem a nitidez do foco.
Tudo em minha volta esta radiante por uma beleza sensivelmente cíclica e magnífica. E os aromas vindos da terra lavada e das plantas e do mato, após a chuva que caiu, fluem até o meu nariz, enquanto meus pés descalços vão tocando com pisadas firmes e seguras, os tapetes formados pelas folhas de outono caídas ressequidas pelo chão.
Vou assim avançando na minha caminhada.
Às vezes, eles, os meus pés, até afundam no lodo da terra ou na composição fofa dos acúmulos de muitas folhas que jazem umas sobre as outras, apodrecendo e virando esterco para fertilizar naturalmente o fértil chão.
As folhas destoam-se em vários tons de cores degradee que se apresentam desde o verde até o amarelado ouro ou ocre. E também em vários tons de pastel e até de tons marrons escuros ou terra de siena queimada ou avermelhado telha ou vinho.
São assim que se apresentam as cores do outono, com estas folhas diversas de tamanhos e formas. E que se faz de tapete natural para que eu possa continuar o meu percurso desta caminhada lenta e suave em que avanço mata adentro, com os meus pés descalços, integrando meu corpo com a força da terra.
Vou assim caminhando vagarosamente, embora sempre. Num ritmo constante, ladeira acima. Exalando o forte perfume vindo das folhas dos pés dos enormes eucaliptos que impregnam o ar com suas fragrâncias refrescantes e energizantes.
Vou assim, avançando, seguindo o meu caminho com o meu íntimo taciturno e pleno de amor.
Tranquilo e em paz e observador de mim mesmo e de tudo a minha volta. Adentrando firme rumo ao encontro do ritmo lento e aconchegante deste compasso sentimental que me acolheu amadurecendo os meus sentimentos exatamente por ter vindo avante, sempre avante, fincando firmes os meus pés neste meu criativo mundo amoroso e sonhador. Que nada mais é do que o meu poético chão!
Um poético chão para pisar, viver e saborear as eternas nuances projetadas do infinito Universo que se expande rumo ao futuro com suas incontáveis plêiades compostas por inumeráveis miríade de estrelas consteladas que o meu eu sublime vive a olhar, amar e reverenciar!

http://www.poetasdelmundo.com/verinfo_america.asp?ID=7565

odenir.ferro@yahoo.com.br

 

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Delasnieve Daspet
Embaixadora Universal da Paz
Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix
Genebra - Suiça
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Enc: [Caminho Pelas Estrelas] Poema: TABACARIA do Poeta Fernando Pessoa / posted b...



123º ANIVERSÁRIO DE FERNANDO PESSOA



















POEMA: TABACARIA


AUTORIA DO POETA FERNANDO PESSOA





Não sou nada.


Nunca serei nada.


Não posso querer ser nada.


À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,


Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é


(E se soubessem quem é, o que saberiam?),


Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,


Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,


Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,


Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,


Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,


Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.


Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,


E não tivesse mais irmandade com as coisas


Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua


A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada


De dentro da minha cabeça,


E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.


Estou hoje dividido entre a lealdade que devo


À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,


E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.


Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.


A aprendizagem que me deram,


Desci dela pela janela das traseiras da casa.


Fui até ao campo com grandes propósitos.


Mas lá encontrei só ervas e árvores,


E quando havia gente era igual à outra.


Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?


Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!


E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!


Gênio? Neste momento


Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,


E a história não marcará, quem sabe?, nem um,


Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.


Não, não creio em mim.


Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!


Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?


Não, nem em mim...


Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo


Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?


Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -


Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,


E quem sabe se realizáveis,


Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?


O mundo é para quem nasce para o conquistar


E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.


Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.


Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,


Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.


Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,


Ainda que não more nela;


Serei sempre o que não nasceu para isso;


Serei sempre só o que tinha qualidades;


Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,


E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,


E ouviu a voz de Deus num poço tapado.


Crer em mim? Não, nem em nada.


Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente


O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,


E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.


Escravos cardíacos das estrelas,


Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;


Mas acordamos e ele é opaco,


Levantamo-nos e ele é alheio,


Saímos de casa e ele é a terra inteira,


Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;


Come chocolates!


Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.


Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.


Come, pequena suja, come!


Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!


Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,


Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei


A caligrafia rápida destes versos,


Pórtico partido para o Impossível.


Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,


Nobre ao menos no gesto largo com que atiro


A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,


E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,


Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,


Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,


Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,


Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,


Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,


Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -


Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!


Meu coração é um balde despejado.


Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco


A mim mesmo e não encontro nada.


Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.


Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,


Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,


Vejo os cães que também existem,


E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,


E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,


E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.


Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,


E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses


(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);


Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo


E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube


E o que podia fazer de mim não o fiz.


O dominó que vesti era errado.


Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.


Quando quis tirar a máscara,


Estava pegada à cara.


Quando a tirei e me vi ao espelho,


Já tinha envelhecido.


Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.


Deitei fora a máscara e dormi no vestiário


Como um cão tolerado pela gerência


Por ser inofensivo


E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,


Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,


E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,


Calcando aos pés a consciência de estar existindo,


Como um tapete em que um bêbado tropeça


Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.


Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada


E com o desconforto da alma mal-entendendo.


Ele morrerá e eu morrerei.


Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.


A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.


Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,


E a língua em que foram escritos os versos.


Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.


Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente


Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,


Sempre uma coisa tão inútil como a outra,


Sempre o impossível tão estúpido como o real,


Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,


Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)


E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.


Semiergo-me enérgico, convencido, humano,


E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los


E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.


Sigo o fumo como uma rota própria,


E gozo, num momento sensitivo e competente,


A libertação de todas as especulações


E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira


E continuo fumando.


Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira


Talvez fosse feliz.)


Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.


O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).


Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.


(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)


Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.


Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo


Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.





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Postado por Odenir Ferro no Caminho Pelas Estrelas em 3/01/2011 05:49:00 AM

Enc: [Caminho Pelas Estrelas] Prosa Poética: O MEU POÉTICO CHÃO! ( Autor: Odenir F...




PROSA POÉTICA: O MEU POÉTICO CHÃO
Autor: Odenir Ferro

Um gosto de sal na boca e o aroma da terra lavada fluindo acima dos meus pés, enquanto piso descalço nas folhas ressequidas pela estação outono.
Um espelho em forma de muitos fiascos dos raios do sol refletindo nos meus olhos mirando tudo a minha volta. E em torno de mim, fica alumiando a minha emoção. Enquanto vou transmutando as minhas esperanças, quase subjetivas dentro das minhas sensações, no objetivo transparente do horizonte logo ali!
Na espreita, me mirando, entreolhando-me entre as plantas umedecidas pelas gotículas de chuva, que agora se ressecam na brisa amena do vento tépido pela tênue e tímida luz dos reflexos vindos dos raios solares; que pouco os deixam, a espessura das folhas plenas de texturas firmes e verdes, os adentrarem floresta dentro. Para virem refletirem-se no chão.
Enlameado chão repleto de folhas outonais caídas amarelecidas.
Onde eu as piso caminhando vagarosamente, pensando no meu chão.
O meu poético chão! O meu Universo construído pela minha imaginativa emoção em ação. E tracejado pelas linhas do meu coração!
Onde sempre vivo a rabiscar os esboços e faço uns planos e tracejo metas cheias de desenhos de letras. Sempre paginando e repaginando os percursos do meu viver. Ao ir desenhando-me em caricaturas coerentes com o meu profundo eu, através das linhas do meu sublime imaginário.
Pleno de força poética regida pela beleza eterna do Universo caminhando o planeta Terra entre as estrelas, rumo ao infinitivo incógnito da desconhecida imensidão.
Imensidão composta pela ígnea chama do Amor Eterno e Divinal da Sagrada Criação, que nós O denominamos reverentes e humildes, de Deus!

Enquanto piso folhas e flores ressequidas pelo tempo, espalhadas pelo chão feitas um gigantesco tapete. Penso e contemplo dentro e fora de mim a beleza do incógnito expansivo da plenitude amorosa que nos presenteia de pura e radiante clareza e carisma. Feito águas puras cristalinas jorrando até a fonte do nosso amor as nuances delineadas pelos contornos das composições que atuam entre o micro e o macro cosmos. Que ladeia-nos fora de nós, onde neles flutuamos, vivemos, vibramos, atuamos, enfim. Com a força da nossa vida motivando-nos a caminhar e criarmos ininterruptamente as texturas alquímicas do nosso próprio universo interior.
Rabisco uns desenhos de letras e deles extraio as palavras para compor as minhas mais complexas emoções. Por sentir a plenitude presente em todas as facetas que compõem o meu eu. Ao levar-me para fora de mim, ao irk projetando-me para fora de mim, com o meu senso criativo segurando a minha alma por um fio imaginário. Idealizado pelos sonhos das minhas memórias. Que fluem intempestivamente como se fossem uma grossa pancada de chuva inesperada, caindo pela floresta, agora!
Chuva que vem molhando meu rosto, misturando-se com as minhas grossas lágrimas e diluindo e misturando-se com o suor do meu rosto.
Fico eu, estagnado por uns momentos. Sempre atento a tudo, enquanto a chuva, do mesmo instante em que veio e caiu por não mais que uns poucos minutos, para de repente, estanca-se enquanto por dentro de mim, deixo fluir o fluxo do meu sangue que o sinto fazendo corar as faces do meu suado rosto.
Enquanto a chuva para de repente, percebo que muitos grilos começam a orquestração sonora em conjunto com as cigarras, formando uma bela, melancólica e singela sinfonia que flui por todos os poros da floresta cheia de mato verde e perfumado.
Num relance de olhos, posso notar que acetinadas brumas de névoa úmida, agora emergem do plácido lago situado à minha esquerda.
Nas suas margens pode-se ver muitas flores d'água e pequenas vitórias-régias. Cujas flores de um tom rosa claro ficam expostas imponentes refletidas, no espelhado do calmo e cristalino lago.
Os pés de coqueiros estão inertes como rochas. Contemplativos mirando o azul celúreo do céu!
E os bambuzais, mais distantes um pouco dali, também refletem suas copas verdes mescladas de tons olivas, verdes musgos, indo até os tons mais amarelados e verdes claros de galhos de bambus envelhecidos ou ainda em broto. Tudo isso é possível ver do outro lado. Na margem oposta onde estou agora. E que fica entre mim e o lago. Mas que também se projeta se alonga e se mostra de forma inversa e espelhada dentro dele. Compondo uma bela imagem numa paisagem perene, flexível e quase inerte dentro dele.
Apenas pequenos movimentos de ondas pouco difusas e minúsculas, fazem movimentos circulares que estão presentes na dinâmica dos acontecimentos, devido aos pequenos pingos e respingos de algumas gotículas de chuva que ainda caem. Fazendo assim, com que estas belas imagens cênicas refletidas dentro do plácido lago, se tremeluzem de quando em quando, embora sem perderem a nitidez do foco.
Tudo em minha volta esta radiante por uma beleza sensivelmente cíclica e magnífica. E os aromas vindos da terra lavada e das plantas e do mato, após a chuva que caiu, fluem até o meu nariz, enquanto meus pés descalços vão tocando com pisadas firmes e seguras, os tapetes formados pelas folhas de outono caídas ressequidas pelo chão.
Vou assim avançando na minha caminhada.
Às vezes, eles, os meus pés, até afundam no lodo da terra ou na composição fofa dos acúmulos de muitas folhas que jazem umas sobre as outras, apodrecendo e virando esterco para fertilizar naturalmente o fértil chão.
As folhas destoam-se em vários tons de cores degradee que se apresentam desde o verde até o amarelado ouro ou ocre. E também em vários tons de pastel e até de tons marrons escuros ou terra de siena queimada ou avermelhado telha ou vinho.
São assim que se apresentam as cores do outono, com estas folhas diversas de tamanhos e formas. E que se faz de tapete natural para que eu possa continuar o meu percurso desta caminhada lenta e suave em que avanço mata adentro, com os meus pés descalços, integrando meu corpo com a força da terra.
Vou assim caminhando vagarosamente, embora sempre. Num ritmo constante, ladeira acima. Exalando o forte perfume vindo das folhas dos pés dos enormes eucaliptos que impregnam o ar com suas fragrâncias refrescantes e energizantes.
Vou assim, avançando, seguindo o meu caminho com o meu íntimo taciturno e pleno de amor.
Tranquilo e em paz e observador de mim mesmo e de tudo a minha volta. Adentrando firme rumo ao encontro do ritmo lento e aconchegante deste compasso sentimental que me acolheu amadurecendo os meus sentimentos exatamente por ter vindo avante, sempre avante, fincando firmes os meus pés neste meu criativo mundo amoroso e sonhador. Que nada mais é do que o meu poético chão!
Um poético chão para pisar, viver e saborear as eternas nuances projetadas do infinito Universo que se expande rumo ao futuro com suas incontáveis plêiades compostas por inumeráveis miríade de estrelas consteladas que o meu eu sublime vive a olhar, amar e reverenciar!



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Postado por Odenir Ferro no Caminho Pelas Estrelas em 4/19/2008 06:27:00 AM